Gazeta do Povo | Falta de pessoal dificulta o trabalho dos institutos de planejamento

Daniel Castellano/ Gazeta do Povo

Fonte: Gazeta do Povo 

A falta de reposição de funcionários faz com que alguns dos mais importantes órgãos estatais destinados a planejar o futuro de Curitiba, do Paraná e do país passem por dificuldades. Os sintomas são semelhantes no Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), no Instituto Agronômico do Paraná (Iapar), no Instituto Paranaense de Desenvolvimento Econômico e Social (Ipardes) e no Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba (Ippuc). Com a aposentadoria de servidores mais antigos, perde-se experiência. Sem novas contratações por concurso, o quadro diminui. Os resultados são visíveis: a eficiência se reduz.

No Ipardes, um terço do pessoal se desligou em seis anos. Em 2008, eram 143 servidores efetivos. Hoje são 94. Instituto paranaense com atribuições equivalentes às do IBGE, o Ipardes faz pesquisas regulares sobre população e economia. Mas a falta de pessoal já levou o Ipardes a cancelar a pesquisa mensal de emprego. Segundo Gilmar Mendes Lourenço, presidente do órgão, mais de 80% da redução de efetivo ocorreu em função de aposentadorias.

No Iapar, o plano de carreiras está defasado. Implantado em 2006, ele prevê que o instituto deve ter 1.232 servidores – dos quais 250 na área de pesquisa. Mas hoje só 57% do quadro está preenchido, com 139 pesquisadores entre os 707 servidores. “Os colaboradores se aposentam, vão trabalhar em outros lugares ou falecem. E a reposição é uma questão complicada no setor público”, diz Florindo Dalberto, diretor-presidente do Iapar.

De acordo com Adelar Motter, diretor de recursos humanos e de inovação, a situação do instituto poderia estar melhor. “Há várias áreas novas em que o instituto deveria ter entrado e que ainda não conseguimos por falta de pessoal. É o caso da agricultura de precisão e da bioengenharia”, diz. Clima e meio ambiente são outras as áreas que o Iapar pretendia, mas não consegue, ampliar as pesquisas.

O Ippuc, responsável por grandes inovações urbanísticas em Curitiba entre os anos 1970 e 1990, conta com um total de 263 funcionários. Nos últimos três anos, 20 servidores deixaram seus cargos, sem reposição. O número de vagas autorizadas para o instituto, no entanto, é 662. Isso significa que apenas 39% do quadro está preenchido. O resultado é que o instituto perdeu relevância. Na última campanha eleitoral para a prefeitura, em 2012, era consenso entre os candidatos que o Ippuc precisava ser revitalizado.

O atual presidente do Ippuc, Sérgio Pires, diz acreditar que o número de colaboradores depende dos planos e demandas de cada setor, mas reconhece a falta de pessoal. “É difícil. As pessoas se aposentam e levam consigo a experiência e o aprendizado de todo o tempo. Temos dois problemas: não conseguimos contratar novas pessoas para ocupar estes lugares e a experiência de quem nos deixa é insubstituível”, diz Pires.

O que piora a previsão para o Ippuc, o Iapar e o Ipardes é que a média de idade dos funcionários é alta – ou seja, a tendência é que ocorram constantemente novas aposentadorias. No Iapar, a média de idade é de 44 anos. No Ipardes, de 50 anos. No Ippuc, os funcionários têm em média 51 anos.

Solução – Ipardes, Iapar e Ippuc planejam concurso para os próximos anos

Se o diagnóstico é o mesmo para o Ipardes, Iapar e Ippuc, os planos para o futuro dos institutos também são semelhantes: contratação no médio prazo para tentar repor o quadro de pessoal perdido ao longo dos anos.

O presidente do Ipardes, Gilmar Mendes Lourenço, afirma que há a intenção de promover um novo concurso público, mas só no ano que vem. “Ele não deve acontecer este ano por conta do ciclo eleitoral. A expectativa é que aconteça em 2015”, diz.

No caso do Iapar, no último dia 27 foi aprovado um novo plano de carreira. A Lei 18.005, assinada pelo governador Beto Richa (PSDB), faz algumas correções legais, aprimora os mecanismos de progressão nas carreiras e atualiza a tabela salarial. A intenção é aproximar as condições do trabalho do mercado e tornar o instituto uma entidade de pesquisa mais competitiva.

Já o presidente do Ippuc, Sérgio Pires, diz que a Secretaria de Recursos Humanos de Curitiba planeja realizar concurso para contratar servidores para os próximos dois anos.

IBGE enfrenta terceirização da mão de obra e cortes de verba

Diretor nacional do Sindicato dos Trabalhadores do IBGE, Luis Almeida Tavares diz que há tempos o instituto passa por um processo de “desmonte”. Com quase 80 anos, o órgão responsável pelo levantamento das informações estatísticas oficiais do país vem sofrendo os efeitos da “terceirização” de mão de obra. Segundo Tavares, 43% dos atuais 10,6 mil funcionários do IBGE são temporários. Como eles podem exercer a função por no máximo três anos, a consequência é que não chegam a ter tempo de adquirir experiência. E o trabalho do IBGE perde qualidade, diz Tavares.

O problema não tem sido resolvido nem com os concursos públicos. “A carreira não é mais atraente”, afirma Cleiton Batista, coordenador paranaense do Sindicato de Trabalhadores do instituto. Segundo ele, muito dos aposentados do IBGE acabam permanecendo nas funções em troca de bônus. “Mas eles podem sair a qualquer momento”, diz. No Paraná, o órgão conta com 207 servidores ativos e 227 contratados temporariamente.

Além dos problemas com pessoal, o IBGE vem sofrendo com o corte de 50% no orçamento do Ministério do Planejamento, ao qual é vinculado. Ao menos duas pesquisas foram adiadas em função dos cortes: a Contagem Populacional, realizada no intervalo entre os Censos Demográficos; e a Pesquisa de Orçamentos Familiares. “Todo planejamento fica afetado sem esses dados”, aponta Batista. A Contagem, por exemplo, interfere diretamente no cálculo do Fundo de Participação dos Municípios (FPM).

A reportagem entrou em contato com o IBGE, mas a assessoria de imprensa do instituto informou que não poderia dar um retorno a tempo.

Erro do Ipea

A recente constatação de um erro crasso num levantamento também afetou a imagem de outro centro nacional de estudos: o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), cujo os dados servem de base para formulação de políticas públicas. Na semana passada, a instituição admitiu erros na divulgação da pesquisa sobre tolerância social à violência contra mulheres. Inicialmente, o estudo indicava que 65% dos brasileiros apoiavam a agressão a mulheres que usam roupas curtas. Na verdade, 26% deram essa resposta.

Katna Baran, com agências

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